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Creatina faz mal aos rins?

Atualizado: 7 de jul.

A creatina é um dos suplementos mais estudados e utilizados no mundo. Ainda assim, poucas estratégias nutricionais despertam tantas dúvidas e preocupações quanto ela, especialmente quando o assunto é segurança renal.


É comum ouvir afirmações de que a creatina pode sobrecarregar os rins ou causar danos a longo prazo. Mas, afinal, o que realmente mostram as evidências científicas?


A resposta curta é: para indivíduos saudáveis, as evidências científicas atuais não demonstram que a suplementação de creatina, quando utilizada nas doses recomendadas, cause lesão renal.


O que é a creatina?


A creatina é um composto nitrogenado naturalmente produzido pelo organismo a partir dos aminoácidos glicina, arginina e metionina, principalmente no fígado, rins e pâncreas. Ela também pode ser obtida por meio da alimentação, especialmente através do consumo de carnes e peixes.


A maior parte da creatina corporal encontra-se armazenada no músculo esquelético na forma de fosfocreatina, onde exerce papel fundamental no sistema energético responsável pela ressíntese rápida de ATP, principal molécula utilizada como fonte de energia pelas células.


Na prática, isso significa que a creatina pode contribuir para melhorar a capacidade de realizar esforços repetidos e de alta intensidade, favorecendo a manutenção do desempenho durante o treinamento. Ao longo do tempo, esse efeito pode facilitar maior volume de treino, progressão de cargas e número de repetições realizadas, contribuindo indiretamente para ganhos de força, hipertrofia e composição corporal.


Por esse motivo, a creatina tornou-se uma das estratégias nutricionais mais estudadas e com maior nível de evidência científica para desempenho físico e adaptações relacionadas ao treinamento de força.


Por que surgiu a ideia de que a creatina faz mal aos rins?


Grande parte dessa preocupação surgiu porque a suplementação pode aumentar os níveis sanguíneos de creatinina.


A creatinina é uma substância produzida naturalmente pelo organismo e eliminada principalmente pelos rins. Por esse motivo, seus níveis sanguíneos são frequentemente utilizados como um marcador indireto da função renal: quando os rins não conseguem filtrar adequadamente essa substância, a creatinina tende a se elevar.


Entretanto, um aumento discreto e isolado da creatinina em pessoas que utilizam creatina não significa necessariamente que exista dano aos rins.


Isso ocorre porque parte da creatina suplementada é naturalmente convertida em creatinina, podendo elevar seus níveis laboratoriais sem que isso represente uma alteração patológica da função renal. Em outras palavras, a suplementação pode provocar um aumento pequeno da creatinina por mecanismos fisiológicos, o que historicamente contribuiu para a associação equivocada entre creatina e lesão renal.


Naturalmente, isso não significa que a creatinina deixe de ser útil na avaliação da função renal. Alterações mais importantes ou persistentes, especialmente quando associadas a outros achados clínicos, laboratoriais ou à presença de doença renal prévia, devem ser avaliadas adequadamente.


Essa distinção é fundamental e explica boa parte da confusão existente sobre o tema.

O que mostram os estudos científicos?


Nas últimas décadas, centenas de estudos avaliaram a segurança da creatina em diferentes populações.


Em 2023, uma revisão de posicionamento publicada no Journal of the International Society of Sports Nutrition concluiu que não existem evidências científicas consistentes de que a suplementação de creatina cause disfunção renal em indivíduos saudáveis.


Além disso, estudos clínicos e revisões sistemáticas realizados ao longo de décadas não observaram alterações clinicamente relevantes na função renal associadas ao uso de creatina nas doses habitualmente recomendadas.


Atualmente, a creatina é considerada um dos suplementos com maior nível de evidência científica tanto em relação à eficácia quanto à segurança.


Creatina: precisamos tomar mesmo?



Nos últimos anos, a creatina deixou de ser um suplemento associado apenas ao ambiente esportivo e passou a ser divulgada como uma estratégia praticamente universal para saúde, longevidade, cognição e bem-estar.


Embora existam pesquisas investigando possíveis aplicações além do desempenho físico e da composição corporal, muitas das indicações atualmente divulgadas nas redes sociais ainda não dispõem de evidências suficientemente robustas e consistentes para justificar recomendações generalizadas.


Da mesma forma, o fato de uma pessoa praticar atividade física não significa automaticamente que ela precise utilizar creatina.


Em muitos casos, especialmente em indivíduos que estão iniciando o treinamento de força, retornando após longos períodos de inatividade ou que ainda não possuem hábitos bem estabelecidos relacionados ao treinamento, alimentação e sono, a maior parte dos resultados iniciais costuma ocorrer independentemente da suplementação.


Nessas situações, investir na construção de uma rotina consistente, na progressão adequada dos treinos, em uma alimentação compatível com os objetivos e em hábitos de recuperação adequados tende a produzir benefícios significativamente mais relevantes do que a introdução precoce de suplementos.

Isso não significa que a creatina não possa ser utilizada nesses contextos, mas sim que ela não substitui a construção de uma base sólida.


Além disso, mesmo nas áreas em que a creatina apresenta o maior nível de evidência científica, como desempenho em exercícios de alta intensidade, hipertrofia e preservação de massa muscular, seus efeitos costumam ser relativamente modestos e graduais.


A creatina não transforma ninguém instantaneamente nem substitui treinamento adequado, alimentação, sono e consistência ao longo do tempo.


Isso não diminui sua importância. Pelo contrário: ela continua sendo uma das estratégias nutricionais com maior respaldo científico disponível atualmente. Entretanto, compreender seus benefícios reais costuma ser mais útil do que criar expectativas irreais.


Afinal, talvez a pergunta mais importante não seja se a creatina funciona, mas para quem, quando e em qual contexto ela realmente faz sentido. Mas essa é uma discussão que merece um artigo próprio.


Existem situações que exigem maior cautela?


Sim.


Pessoas com doença renal crônica diagnosticada, redução importante da função renal ou outras condições clínicas específicas devem sempre discutir o uso de suplementação com os profissionais responsáveis pelo seu acompanhamento.


Isso não significa que a creatina seja necessariamente contraindicada nessas situações, mas que sua utilização deve ser individualizada e acompanhada adequadamente.


A creatina é segura para uso prolongado?


As evidências científicas disponíveis sugerem que sim.


Estudos acompanharam indivíduos utilizando creatina por períodos prolongados, incluindo vários meses e anos, sem observar aumento da incidência de lesão renal ou alterações clinicamente relevantes na função dos rins.


Além disso, a creatina continua sendo objeto de investigação em diferentes áreas da saúde, incluindo envelhecimento, preservação de massa muscular e reabilitação.


Então, a creatina faz mal aos rins?


Para indivíduos saudáveis, as evidências científicas disponíveis indicam que a resposta é não.


A creatina é atualmente um dos suplementos com maior respaldo científico em relação à segurança e à eficácia.


Como qualquer estratégia nutricional, sua indicação deve considerar objetivos, contexto clínico, hábitos e individualidade, evitando tanto alarmismos desnecessários quanto promessas exageradas.

Referências


Longobardi I, Dolci A, Sanchis-Gomar F, et al. Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show? Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2025;22:2441760.


Longobardi I, Dolci A, Sanchis-Gomar F, et al. Creatine supplementation and kidney health: a narrative review and position statement. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2023;20(1):2200859.


Kreider RB, Kalman DS, Antonio J, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2017;14:18.


Candow DG, Forbes SC, Chilibeck PD, et al. Creatine supplementation and aging musculoskeletal health. Endocrine. 2021;71(3):635-644.


Buford TW, Kreider RB, Stout JR, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: creatine supplementation and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2007;4:6.


 
 
 

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