Ozempic®, Wegovy®, Mounjaro® e outras canetas para emagrecimento: por que apenas aumentar a proteína pode não ser a melhor estratégia nutricional
- Vinícius Elias
- 30 de jun.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
O uso de semaglutida, tirzepatida e das novas terapias para obesidade revolucionou o tratamento do excesso de peso. Mas reduzir toda a estratégia nutricional ao consumo de proteínas pode comprometer disposição, desempenho físico, qualidade da alimentação e até a preservação da massa muscular.
Nos últimos anos, as canetas para emagrecimento como Ozempic®, Wegovy® e Mounjaro® transformaram o tratamento da obesidade e da composição corporal.
Pela primeira vez, tornou-se possível observar perdas de peso superiores a 15%, e em alguns casos até superiores a 20%, utilizando terapias farmacológicas modernas associadas a mudanças no estilo de vida.
Junto com essa revolução terapêutica, entretanto, surgiu uma recomendação que se tornou praticamente um consenso nas redes sociais:
"Se estiver usando caneta para emagrecer, aumente bastante o consumo de proteínas."
Embora a ingestão adequada de proteínas seja realmente importante, a realidade é muito mais complexa.
Na prática, pessoas que utilizam essas medicações frequentemente apresentam redução importante do apetite e da ingestão alimentar total. Nesse contexto, focar exclusivamente em proteínas pode levar à negligência de outros fatores fundamentais para a saúde, a composição corporal e a sustentabilidade dos resultados.
Como as canetas para emagrecimento funcionam?
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em sistemas fisiológicos envolvidos na regulação da fome e da saciedade.
Entre seus principais efeitos estão:
aumento da sensação de saciedade;
redução da fome;
diminuição do interesse por alimentos;
retardo do esvaziamento gástrico;
redução espontânea da ingestão energética.
Para muitas pessoas, isso significa consumir centenas de calorias a menos por dia sem a sensação tradicional de privação alimentar.
Esse fenômeno explica grande parte da eficácia desses medicamentos no tratamento da obesidade.
Por que a preocupação com a massa muscular aumentou tanto?
Toda perda de peso envolve, em maior ou menor grau, perda de diferentes tecidos corporais.
O objetivo ideal durante o emagrecimento é maximizar a perda de gordura e minimizar a perda de massa magra.
Estudos recentes demonstram que os agonistas de GLP-1 e os agonistas duplos GIP/GLP-1 promovem redução predominante da massa gorda, mas também podem resultar em alguma redução absoluta da massa magra, especialmente quando ocorre perda de peso importante.
Isso levou muitos profissionais a enfatizarem, corretamente, a importância da ingestão proteica.
O problema é que, em alguns casos, essa orientação passou a ser interpretada como se a proteína fosse o único fator relevante.
A proteína é importante. Mas ela não resolve tudo.
As proteínas exercem funções fundamentais durante o emagrecimento:
contribuem para a síntese proteica muscular;
auxiliam na manutenção da massa magra;
apresentam elevado potencial de saciedade;
participam da recuperação após o exercício físico.
No entanto, preservar massa muscular depende simultaneamente de diversos fatores:
treinamento resistido adequado;
ingestão energética suficiente;
consumo adequado de proteínas, carboidratos e gorduras, além de fibras e micronutrientes;
recuperação;
qualidade do sono;
adesão ao tratamento.
Em outras palavras:
Consumir grandes quantidades de proteína não compensa uma estratégia alimentar globalmente inadequada.
O erro de reduzir toda a estratégia nutricional à proteína
Uma situação cada vez mais comum é observar indivíduos consumindo quantidades elevadas de proteína enquanto a ingestão total de energia se torna excessivamente baixa.
Isso pode resultar em:
fadiga;
piora da disposição;
redução da performance física;
dificuldade de recuperação;
pior adesão alimentar;
redução da qualidade global da dieta.
Além disso, quando o déficit energético se torna excessivamente agressivo, a preservação da massa muscular pode se tornar mais difícil independentemente da ingestão proteica isolada.
E os carboidratos? Eles devem ser ignorados?
Nos últimos anos, muitas pessoas passaram a enxergar os carboidratos como um nutriente secundário durante o emagrecimento.
Entretanto, especialmente em indivíduos fisicamente ativos, os carboidratos continuam desempenhando funções importantes.
Eles participam de processos relacionados a:
fornecimento de energia;
manutenção do desempenho físico;
tolerância ao treinamento;
recuperação;
qualidade de vida;
adesão ao plano alimentar.
Isso não significa que exista uma quantidade ideal universal de carboidratos para todas as pessoas.
Significa apenas que eles não devem ser automaticamente negligenciados, pelo contrário.
Em alguns indivíduos, a combinação de baixa ingestão energética e restrição excessiva de carboidratos pode contribuir para piora da disposição e redução da capacidade de treinamento, fatores que também influenciam a manutenção da massa muscular.
Mais proteína significa necessariamente mais preservação muscular?
Não.
As evidências atuais sugerem que existe uma faixa adequada de ingestão proteica para a maioria das pessoas em processo de emagrecimento, mas os benefícios adicionais de aumentos progressivos tornam-se menos claros acima de determinados níveis.
Na prática clínica, aumentar progressivamente a ingestão de proteína enquanto outros componentes da alimentação se tornam insuficientes pode não resultar em melhores desfechos.
O contexto global da alimentação continua sendo mais importante do que a ingestão isolada de um único nutriente.
As canetas para emagrecimento substituem uma estratégia nutricional?
Definitivamente não.
Esses medicamentos representam um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade.
No entanto, eles não substituem:
educação alimentar;
treinamento físico;
planejamento nutricional;
construção de hábitos;
acompanhamento profissional.
Na realidade, quanto maior a eficácia farmacológica, maior tende a ser a importância do acompanhamento nutricional para garantir que a perda de peso ocorra com qualidade e sustentabilidade.
O que realmente deve ser priorizado?
Uma estratégia adequada durante o uso dessas medicações deve buscar:
prática de atividades físicas de forma adequada, priorizando, quando possível, treinos de força, que fornecem o estímulo mais eficiente para manutenção do tecido muscular;
ingestão energética suficiente, evitando déficits calóricos excessivamente agressivos que aumentem a perda de massa magra;
consumo proteico adequado, respeitando faixas compatíveis com o objetivo e o contexto clínico;
ingestão adequada de carboidratos, fundamental para disposição e sustentação do desempenho nos treinos, recuperação e manutenção da capacidade de produção de volume e intensidade de exercício;
consumo adequado de gorduras de boa qualidade, fundamentais para funções hormonais
e estruturais;
ingestão adequada de fibras e diversidade alimentar, com impacto direto na saúde intestinal, saciedade e qualidade global da dieta;
aporte suficiente de micronutrientes, frequentemente comprometido em cenários de redução importante da ingestão alimentar;
recuperação adequada e qualidade do sono, fatores diretamente relacionados à regulação metabólica e à preservação de massa magra;
adesão consistente ao plano alimentar e ao tratamento proposto.
Conclusão
Medicamentos como Ozempic®, Wegovy®, Mounjaro® e outras terapias atuais e futuras para obesidade representam um avanço importante na medicina e na nutrição.
Entretanto, reduzir toda a estratégia nutricional ao aumento do consumo de proteínas pode ser uma simplificação excessiva.
A preservação da massa muscular, a manutenção da disposição, a qualidade da alimentação e a sustentabilidade dos resultados dependem da interação entre diversos fatores.
O objetivo do tratamento não deve ser apenas perder peso, mas construir saúde, melhorar a composição corporal e desenvolver resultados compatíveis com qualidade de vida no longo prazo.
Quer uma orientação individualizada?
Cada pessoa possui objetivos, rotina, histórico de saúde e necessidades nutricionais diferentes. Por isso, recomendações gerais, como as apresentadas neste artigo, nem sempre são suficientes para definir a melhor estratégia para o seu caso.
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Referências
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Lean Mass and Musculoskeletal Preservation in GLP-1-Based Obesity Treatment: Nutrition, Exercise, Supplementation, and Monitoring Strategies. Nutrients. 2026.



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